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    A Obsessão Jimmie Durham

    Vanessa Rato, em Sydney

    05 de Junho de 2004 - O artista Jimmie Durham, um índio norte-americano de 64 anos, parece estar a tornar-se numa obsessão na Bienal de Sydney, uma das mais importantes do mundo e que este ano é comissariada pela portuguesa Isabel Carlos.

    A maioria das pessoas já terá visto dois dos três trabalhos que o artista apresenta na bienal. Um está instalado no Museu de Arte Contemporânea, por baixo do lance de escadas da entrada para o primeiro andar. É uma grande caixa cheia de objectos encontrados, livros, ossos, televisões e bonecas de pano. Vislumbra-se através dos degraus à medida que se sobe ou desce.

    O segundo trabalho é um dos sete trabalhos que diferentes artistas fizeram para o Jardim Botânico de Sydney - um tubo em PVC moldado na forma orgânica e inquietante de uma cobra.

    Mas a euforia que se pressente em relação à sua deslocação à bienal não terá tanto a ver com estas obras, nem sequer com a espectacularidade da "Dropped Stone Performance" que o artista apresenta hoje à tarde no pátio do cais da Ópera de Sydney com o mar em pano de fundo.

    O título (qualquer coisa como "Performance da Pedra Caída") é literal: uma grua vai suspender uma grande pedra acima de um carro, um Sedan, e depois deixa-a cair sobre o seu tejadilho.

    "Acho que o interesse que a presença do Jimmie Durham tem suscitado pode ter a ver com a realidade aborígene da Austrália", diz Nikos Papastergiadis, professor da Universidade de Melbourne e um dos directores do Centro Australiano.

    Encontrámo-lo ontem no Artspace, entre as monografias de artistas participantes na bienal que o austríaco Heimo Zobernig ligou umas às outras com cadeias de ferro e que expõe em cima de mesas de madeira com bancos corridos, a convidar a sentar. O professor Papastergiadis acabara a sua intervenção na segunda conferência do intenso programa diário de simpósios e conversas com artistas organizado à volta da bienal.

    O conhecido crítico e comissário brasileiro Ivo Mesquita não pôde, afinal, estar em Sydney para as suas previstas "Notas sobre multiculturalismo, globalismo e novos estereótipos". Papastergiadis veio substitua-lo com "O Tráfico e as Ruínas da Arte e Globalização". A obra do norte-americano Jimmie Durham foi, precisamente, uma das âncoras que usou para abordar o tema. Dez minutos antes da hora marcada, já estavam no Domain Theater mais de 200 pessoas.

    "Num momento em que as contradições da globalização se estão a tornar mais visíveis, é necessário repensar a forma como estabelecemos contacto com os outros", diz Papastergiadis. O reconhecimento de cruzamentos de culturas, valores estéticos e de identidade levou à falência das molduras - de nacionalidade, por exemplo - que tradicionalmente nos serviam de referência. "Há 10 anos diríamos: a obra de arte acontece no olhar de quem a vê. Hoje diremos: a obra de arte acontece no acto de tradução."

    Jimmie Durham, que começou como poeta e activista dos direitos índios e só em 1985 se tornou "artista a tempo inteiro", está primeira vez na Austrália (esteve em Lisboa em 1999 no Museu do Chiado). O seu trabalho pode ser lido à luz do seu legado cultural índio. Com um carácter mais poético ou mais rude, por vezes quase anárquico, mas quase sempre com precisão clínica, as suas intervenções convocam com frequência relações de embate entre representações da natureza e elementos construidos pelo homem que se podem ligar a esse legado.

    O tema toca de perto a realidade de um país recente como a Austrália. Mais ainda porque, na "psique" colectiva, será inevitável o estabelecimento de paralelismos entre a história dos índios norte-americanos e a das tribos aborígenes australianas.

    Um passado de extermínios e expropriações de terras, de confinamento a áreas restritas e quase sempre deslocadas. E um presente de desenraizamento, falta de integração, perda de identidade. São questões por resolver e que raramente são contempladas no discurso político-económico sobre a globalização. "A ovelha na barriga do leão pode mudar o nosso olhar sobre a fera", diz o professor Papastergiadis.

    Source: Público (Portugal)


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